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O que é Seis Sigma?

Marcelo Toledo • 29/01/2020 • 6 anos atrás

Você sabe exatamente o que é Seis Sigma?
Seria apenas mais um programa corporativo para cortar custos? Ou um conjunto excessivamente técnico de cálculos estatísticos que poucos compreendem?
A resposta é não.

O Seis Sigma é uma abordagem robusta de gestão e melhoria de processos que pode assumir diferentes significados dependendo do contexto. De forma ampla e consolidada na literatura, ele pode ser compreendido a partir de três perspectivas complementares: como medida de desempenho, como metodologia estruturada de resolução de problemas e como filosofia gerencial orientada ao cliente e aos resultados financeiros.

1. Seis Sigma como nível de qualidade e desempenho

Sigma como medida de variação

Em estatística, sigma (σ) representa o desvio padrão, uma medida da variabilidade de um conjunto de dados em torno da média. Quanto maior o valor de σ, maior é a dispersão dos resultados; quanto menor, mais concentrados e previsíveis são os resultados do processo.

Seis Sigma - Desvio padrão

Figura 1 – Comparação entre variação estreita e variação ampla em um processo

A variabilidade é um elemento central no desempenho de processos industriais, administrativos e de serviços, pois define a probabilidade de ocorrência de falhas, retrabalho e desperdícios (Pyzdek; Keller, 2011).

Por definição, o desvio padrão corresponde à distância entre a média e o ponto de inflexão da curva normal, sendo um parâmetro fundamental para a análise da estabilidade e da capacidade dos processos.

Seis Sigma - Ponto de Inflexão

Figura 2 – Média, desvio padrão e ponto de inflexão em uma curva normal

Nível sigma e capacidade do processo

O nível sigma expressa a distância, em desvios padrão, entre a média do processo e o limite de especificação mais próximo. Quanto maior essa distância, menor a probabilidade de que uma saída do processo ultrapasse os limites especificados e seja classificada como defeituosa.

Segundo Pyzdek e Keller (2011), o desempenho global de uma organização pode ser avaliado pelo nível sigma de seus processos críticos. Processos com níveis sigma mais elevados apresentam menor variabilidade, menos defeitos e custos significativamente reduzidos da não qualidade.

Figura 3 – Nível sigma e capacidade do processo

Curto prazo, longo prazo e o deslocamento de 1,5σ

Um conceito distintivo do Seis Sigma é a diferenciação entre desempenho de curto prazo e desempenho de longo prazo. Em condições reais de operação, a média de um processo tende a se deslocar ao longo do tempo devido a fatores como desgaste de equipamentos, mudanças ambientais, ajustes operacionais e variabilidade humana.

Mikel Harry introduziu o pressuposto de que esse deslocamento pode atingir até 1,5σ, mesmo em processos sob controle estatístico (Harry; Schroeder, 1998). Considerando esse deslocamento:

  • Um processo , no longo prazo, apresenta aproximadamente 93,3% de conformidade;

  • Um processo , mesmo com deslocamento de 1,5σ, alcança 99,99966% de conformidade, equivalente a 3,4 defeitos por milhão de oportunidades (DPMO).

Esse valor tornou-se o referencial simbólico do Seis Sigma como padrão de excelência operacional.

Figura 4 – Curto prazo, longo prazo e o deslocamento de 1,5σ

Nível sigma e DPMO

A relação entre nível sigma e DPMO permite traduzir conceitos estatísticos em indicadores gerenciais claros, conectando desempenho de processos a custos, riscos e impacto financeiro.

Como destaca Werkema (2012), o avanço de um processo do patamar 4σ para 6σ não representa uma melhoria linear, mas uma redução exponencial no número de defeitos, com efeitos diretos sobre produtividade, confiabilidade e satisfação do cliente.

Tabela 1 – Relação nível sigma e DPMO

2. Seis Sigma como metodologia estruturada de melhoria

Além de métrica, o Seis Sigma é uma metodologia disciplinada de resolução de problemas, amplamente difundida por meio do ciclo DMAIC (Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar).

Essa metodologia é aplicada para:

  • Identificar e validar causas raiz de defeitos;

  • Reduzir variabilidade e desperdícios;

  • Melhorar desempenho de processos existentes.

Há também sua aplicação no desenvolvimento de novos produtos e processos, conhecida como DFSS (Design for Six Sigma), cujo objetivo é projetar soluções robustas desde a concepção (Pyzdek; Keller, 2011).

3. Seis Sigma como filosofia de gestão

O terceiro significado do Seis Sigma é o mais abrangente. Trata-se de uma filosofia gerencial orientada ao cliente, fundamentada na premissa de que defeitos reduzem a satisfação, comprometem a fidelidade e elevam os custos operacionais (Brue; Howes, 2006).

Sob essa ótica, o Seis Sigma:

  • Prioriza decisões baseadas em dados e fatos;

  • Foca processos críticos para o cliente;

  • Conecta melhoria operacional a resultados financeiros sustentáveis.

Harry (1998) enfatiza que o Seis Sigma não deve ser entendido como uma meta estatística isolada, mas como um processo de negócio voltado à melhoria da lucratividade.

Conceitos básicos do Seis Sigma

Processo

Um processo é qualquer atividade repetitiva — industrial, administrativa ou de serviços — que transforma entradas em saídas.

Defeito

Um defeito é qualquer característica mensurável de um processo ou de sua saída que não atende às especificações ou expectativas do cliente.

A premissa central do Seis Sigma é direta: se a variabilidade e os defeitos podem ser medidos, eles podem ser analisados e reduzidos de forma sistemática, aproximando o desempenho do nível de quase zero defeitos (Brue; Howes, 2006).

Definições consolidadas e complementares de Seis Sigma

Diversos autores consagrados contribuem para uma compreensão mais madura e abrangente do Seis Sigma.

Segundo Rotondaro (2015), o Seis Sigma é uma metodologia voltada ao sucesso do negócio por meio da compreensão das necessidades dos clientes internos e externos.

Para Campos (2015), trata-se de uma estratégia gerencial de mudanças, orientada à redução da variação e ao aumento da competitividade organizacional.

Harry e Schroeder (1998) definem o Seis Sigma como um processo de negócio que permite às organizações melhorar significativamente sua lucratividade por meio da redução sistemática da variabilidade.

Do ponto de vista estatístico e da engenharia da qualidade, Montgomery (2013) reforça que processos de alto desempenho são aqueles cuja variabilidade natural é pequena quando comparada aos limites de especificação, fundamento técnico que sustenta o conceito de capacidade Seis Sigma.

Kubiak e Benbow (2009), no manual oficial da ASQ, definem o Seis Sigma como uma abordagem disciplinada, orientada por dados, para eliminar defeitos em qualquer processo, integrando métodos estatísticos e práticas gerenciais.

Snee (2000) caracteriza o Seis Sigma como uma evolução da engenharia da qualidade, ao estruturar ferramentas estatísticas clássicas em um sistema gerencial orientado a resultados mensuráveis.

Essas definições convergem para a compreensão do Seis Sigma como:

  • Um conceito estatístico de capacidade e variabilidade;

  • Uma metodologia estruturada de melhoria;

  • Um sistema de gestão orientado ao cliente e à lucratividade.

O que há de realmente novo no Seis Sigma?

Embora as ferramentas estatísticas utilizadas sejam conhecidas há décadas, o diferencial do Seis Sigma está em sua estruturação integrada, no foco explícito na variabilidade e na conexão direta com resultados financeiros.

Segundo Snee (2000), não são as ferramentas isoladas que tornam o Seis Sigma singular, mas a forma como elas são organizadas em um sistema disciplinado de gestão da melhoria.

Conclusão

Em síntese, o Seis Sigma pode ser compreendido simultaneamente como:

  • Uma base estatística de medição do desempenho (3,4 DPMO);

  • Uma metodologia disciplinada para redução de variabilidade e defeitos;

  • Uma filosofia de gestão orientada ao cliente e aos resultados financeiros.

Essa integração explica por que o Seis Sigma permanece, décadas após sua consolidação, como uma das abordagens mais eficazes para sustentar a excelência operacional em ambientes industriais, de serviços e transacionais.

Referências

BRUE, G.; HOWES, R. Six Sigma: The McGraw-Hill 36-Hour Course. New York: McGraw-Hill, 2006.

CAMPOS, M. S. Lean Seis Sigma. Disponível em: http://www.siqueiracampos.com/areas-de-atuacao/lean-seis-sigma. Acesso em: 29 jan. 2020.

HARRY, M. J.; SCHROEDER, R. Six Sigma: A Breakthrough Strategy for Profitability. Quality Progress, May 1998.

KUBIAK, T. M.; BENBOW, D. W. The Certified Six Sigma Black Belt Handbook. Milwaukee: ASQ Quality Press, 2009.

MONTGOMERY, D. C. Introduction to Statistical Quality Control. 7. ed. New York: Wiley, 2013.

PYZDEK, T.; KELLER, P. A. Seis Sigma: Guia do Profissional. 3. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011.

ROTONDARO, R. G. Visão Geral. In: ROTONDARO, R. G. (Org.). Seis Sigma: Estratégia Gerencial para a Melhoria dos Processos. São Paulo: Atlas, 2015.

SNEE, R. D. Impact of Six Sigma on Quality Engineering. Quality Engineering, v.12, n.3, 2000.

WERKEMA, C. Criando a Cultura Lean Seis Sigma. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.



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